Por Antonio Neto*
Vamos ser honestos desde o início: se você está lendo isso, provavelmente já percebeu que o ambiente regulatório não está exatamente ajudando o seu sucesso. Em novembro de 2025, o Bacen finalmente publicou as regras para prestadores de serviços de ativos virtuais (PSAV ou VASP) e o que veio foi, digamos, generoso. Capital mínimo de R$ 10,8 milhões para operações básicas. Até R$ 37,2 milhões se você quiser fazer algo mais ousado, como custodiar ativos e intermediar negociações ao mesmo tempo.
Para contextualizar: o MiCA europeu exige cerca de €125 mil. Nós pedimos vinte vezes mais. Somos especiais assim.
Então aqui está a pergunta que ninguém quer fazer em voz alta: e se você não tiver esse capital? E se você for uma das 80% de fintechs cripto que operam com estruturas enxutas, queimando caixa para validar produtos, e de repente descobriu que precisa de dezenas de milhões para simplesmente existir legalmente?
A resposta curta é: Web3. Mas não do jeito que você está pensando.
O elefante regulatório na sala
Antes de falar de soluções, precisamos encarar o problema de frente. As Resoluções 519, 520 e 521 do Bacen não são apenas regulação, são um filtro de extinção. A mensagem implícita é clara: ou você tem capital de banco, ou você fecha as portas.
As novas regras exigem três diretores estatutários (negócios, compliance, riscos), segregação patrimonial com contas individualizadas, auditorias independentes bienais, e, meu favorito, identificação obrigatória de proprietários de carteiras auto custodiadas. Tudo isso para um prazo de adequação que termina em outubro de 2026.
E tem mais: se você opera com stablecoins atreladas ao dólar, agora você está fazendo câmbio. Parabéns, você acaba de herdar toda a regulação cambial brasileira de brinde.
O resultado é previsível. Consolidação brutal. M&A forçado. E muita gente talentosa sendo empurrada para a ociosidade ou para fora do país. Não porque falharam no mercado, mas porque o regulador decidiu que empreender não é o que é necessário para o Brasil.
Mas aqui está o plot twist que poucos estão falando: a regulação atinge entidades centralizadas. Protocolos descentralizados? São parte de um outro universo. E isso pode ser exatamente o que salva seu negócio: Go Global!
DeFi: a porta para um ambiente global
Enquanto o regulador gastou três anos refinando regras para exchanges e custodiantes, DeFi (Finanças Descentralizadas) continua operando normalmente. Não por acidente, é genuinamente difícil regular código que roda em blockchains públicas sem jurisdição definida, sem entidade controladora e com ativos sob autocustódia.
Para fintechs sufocadas pelos novos requisitos, isso abre uma avenida de sobrevivência: em vez de ser a empresa regulada que não consegue pagar o pedágio, você pode ser a empresa que constrói em cima de infraestrutura descentralizada, onde o pedágio simplesmente não existe. E a empresa não precisa estar constituída no Brasil para que usuários possam acessar o seu produto.
Alguns já entenderam isso. A Pods Finance, brasileira, captou R$ 30 milhões para desenvolver um protocolo de opções em DeFi. A Blockful criou um framework de segurança para DAOs que foi adotado pela Uniswap e ENS. Nenhuma das duas precisa de R$ 37 milhões em capital regulatório para existir. Nenhuma das duas vai fechar por causa do Bacen.
A lógica é simples: se você não pode pagar a entrada do cassino, construa seu próprio jogo em território neutro.
Tokenização: o caminho regulado que ainda faz sentido
Nem tudo precisa ser fuga. Se você quer operar dentro das regras que o regulador oferece, mas sem precisar de capital de banco, a tokenização de ativos reais (RWA) oferece uma rota com requisitos muito mais palatáveis – pelo menos por enquanto.
A Resolução CVM 88 permite ofertas de até R$15 milhões (em breve R$25 milhões) através de plataformas de crowdfunding, sem necessidade de registro como instituição financeira. Mais de 75 plataformas já operam nesse modelo, movimentando R$3,1 bilhões até o terceiro trimestre de 2025, um crescimento de 300% em dois anos.
Os casos de uso que estão funcionando são: tokenização de recebíveis (duplicatas, CCBs), precatórios, consórcios contemplados, e cada vez mais, crédito rural via CPRs. O Mercado Bitcoin tokenizou mais de R$3 bilhões desde 2023. A Liqi cresceu 152% no último ano com parcerias com Banco BV e Itaú.
O mais interessante? O mercado de duplicatas no Brasil movimenta R$11 trilhões por ano, mas apenas 27% é usado como garantia de crédito. Tokenizar esses ativos não é só oportunidade de negócio, é resolver um problema real de acesso a capital para PMEs.
Se sua fintech trabalha com crédito, antecipação de recebíveis, ou qualquer coisa que envolva ativos do mundo real, a tokenização via CVM 88 é provavelmente a melhor alternativa para continuar operando sem precisar virar refém das regras VASP.
Stablecoins: o produto que o DREX não vai entregar
Vou contar uma coisa que pode ser que você ainda não tenha sabido: o DREX fracassou.
No ano passado, o Banco Central desligou a blockchain Hyperledger Besu do projeto porque não conseguiu resolver privacidade em escala – se tivessem escolhido Solana, é possível que o DREX estivesse avançando. O próprio Galípolo admitiu que a tecnologia “inviabilizou” o projeto original. O DREX agora é uma “plataforma de tokenização” que vai abandonar a blockchain na próxima fase.
Enquanto isso, stablecoins privadas dominam. O USDT representa 90% do volume cripto brasileiro, R$ 271 bilhões acumulados. A BRZ da Transfero atingiu R$1 bilhão de valor transferido operando em 16 blockchains. A BRLA processa 600 mil transações de pagamentos internacionais por mês com lastro no Tesouro Selic.
O mercado votou com os pés: quer utilidade, não promessas governamentais.
Para fintechs focadas em pagamentos, especialmente cross-border, a infraestrutura de stablecoins já está pronta e funciona em ambientes não permissionados. A Trace Finance, por exemplo, utiliza a Solana para realizar pagamentos internacionais para alguns dos principais serviços internacionais que operam no país. Com stablecoins processando globalmente US$32 trilhões em 2024, essa é uma infraestrutura que existe independente da boa vontade do regulador brasileiro.
O playbook de sobrevivência para 2026
Vou ser direto sobre as opções que você tem:
Se você tem capital (ou acesso a ele): busque a licença PSAV. Vai ser doloroso, caro, e burocrático. Mas você sai do outro lado com uma barreira de entrada que elimina 80% da competição. É um moat regulatório, e moats têm valor.
Se você não tem capital: pivote antes que seja tarde. Você tem três caminhos viáveis:
O primeiro é construir em DeFi. Desenvolva aplicativos, protocolos, ferramentas e infraestrutura. O código não precisa de licença ou permissão. Projetos como Kamino, Jupiter e Orca não são empresas brasileiras reguladas, são softwares rodando em blockchains públicas. Você pode contribuir para esse ecossistema sem pedir permissão a ninguém. Esta opção abre a distribuição global e acesso a mais de 10M de usuários mensais da Solana.
O segundo é operar sob a CVM 88. Tokenização de ativos reais tem requisitos muito menores e demanda real do mercado. Se você consegue originar ativos — crédito, recebíveis, imóveis — existe uma plataforma querendo distribuir para você.
O terceiro é virar B2B. Em vez de ser a fintech regulada, seja o fornecedor de tecnologia para quem consegue pagar a licença. Compliance-as-a-service, infraestrutura de custódia, soluções de KYC/KYT — o mercado de RegTech vai explodir nos próximos 18 meses porque os incumbentes precisam desesperadamente dessas soluções.
Obviamente, existem outras opções, porém com a regulamentação vigente é pivotar, fazer um M&A ou fechar as portas.
O ponto que ninguém quer admitir
A regulação criou um ambiente onde apenas empresas com capital de banco conseguem operar legalmente no mercado cripto centralizado. Isso não é acidente — é design. A consolidação é o objetivo, não o efeito colateral. E muita fintech boa vai morrer não porque o produto era ruim ou o mercado não existia, mas porque não conseguiu levantar dezenas de milhões para satisfazer uma exigência regulatória.
Web3, especificamente a infraestrutura descentralizada e não permissionada, existe justamente para criar alternativas a esse tipo de sistema. A ironia é que quanto mais o regulador aperta, mais relevante essa infraestrutura se torna.
Então sim, o título deste artigo deveria ter sido “como usar Web3 para escalar”, contudo terminou sendo sobre como a legislação para stablecoins foi usada para regular todas as fintechs e elevarem os requisitos. Mas entre nós: para quem está olhando para outubro de 2026 sem R$10 milhões no banco, escalar e sobreviver viraram a mesma coisa.
O prazo está correndo. A pergunta que você precisa responder não é se Web3 faz sentido para sua fintech, é se você prefere encontrar uma rota alternativa agora ou ser mais uma estatística de consolidação depois.
*Sobre Antonio Neto
Desde 2012 na indústria cripto,Antonio Neto é o Head de LATAM na Solana Foundation.O executivo lidera iniciativas de adoção de blockchain na região com foco em stablecoins, pagamentos e tokenização. Atua na interseção entre infraestrutura financeira, tecnologia blockchain, growth e produtos financeiros e tecnológicos on-chain para empresas financeiras.
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