No dia 1 e 2 de junho ocorreu o Tokennation 2026, no Pavilhão Bienal dentro do Parque do Ibirapuera em São Paulo e o Bitcoin Block cobriu o evento com correspondência de Vini B
Dentro do Tokennation 2026
Tokennation está hoje entre os maiores e mais relevantes eventos de cripto e blockchain no Brasil. Eu tive o privilégio de participar da edição de 2026 e venho aqui contar um pouco do que vi e ouvi este ano. Como sempre, vou focar em utilidade, segurança e privacidade — que são os temas que mais me interessam — mas também vou passar uma ideia geral do evento.
Em primeiro lugar, foi impressionante a quantidade de participantes, palestrantes e apoiadores mesmo durante o bear market prolongado que estamos vivendo. Tem muita gente boa construindo e usando cripto no Brasil. Isso é um sinal claro em meio a tanto ruído.
Foram cinco palcos simultâneos com um sistema de rádio em headphones que permitia saltar de um nicho para outro com facilidade. A organização está de parabéns em todos os sentidos e eu não presenciei nenhum problema técnico relevante em toda experiência.
Os palestrantes e painelistas também eram variados e tinham conversas rolando para todos os gostos em torno da tecnologia blockchain. De grandes nomes da indústria como a Kast e Binance (um dos patrocinadores principais do evento) para pequenos contribuidores de projetos open-source, embaixadores de projetos em crescimento e criadores de conteúdo independentes. Tinha builder de todo tipo trazendo insights valiosos para os participantes.
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Alguns insights do Tokennation 2026
Experiência do usuário (UX) abstraída
Em desenvolvimento e usabilidade, Felipe Facio — da FIAP (Faculdade de Informática e Administração Paulista) — falou no palco “Hackanation” sobre a importância de melhorar a experiência do usuário cripto. A mesma ideia que a Camila Nikolaus passou no Zcon Vozes 2 (organizado pela Zcash Brasil) dois dias antes no prédio da FIAP.
Ambos concordam que é preciso abstrair a complexidade ao interagir com produtos cripto para aumentar o potencial de adoção. No entanto, os dois também levantaram trade-offs relacionados com segurança e privacidade.
Felipe levou o exemplo dos avatares NFT do Reddit para o palco, como um caso de sucesso. O usuário comum consegue comprar um novo avatar direto na plataforma com meios de pagamento tradicionais e nunca saber que o token existe em uma blockchain. Enquanto usuários nativos de cripto têm todos os benefícios da tecnologia: autocustódia, acesso a mercados secundários para negociação independente dos avatares e mais.

Conversando com ele em exclusiva depois da palestra, Felipe mencionou o padrão ERC-4337 da EVM do Ethereum como projeto relevante em abstração. Polygon e Base foram duas redes mencionadas por Facio como bons exemplos neste sentido e ele concordou que o trabalho da NEAR também é relevante para melhor experiência do usuário.
Ao discutir as trocas em segurança e privacidade, Felipe citou o MPC da Fireblocks como um ótimo case que encontra equilíbrio entre os pólos.
Bitcoin institucional vs. Bitcoin P2P
Demonstrando o quão eclética a programação do Tokennation foi, tivemos duas conversas bem diferentes sobre Bitcoin rolando em sequência.
Primeiro, o palco principal “Tokennation” sediou um painel com grandes players do Brasil, oferecendo um olhar institucional sobre o BTC. Cláudia Mancini, editora do Blocknews, mediou o painel entre Guiga Ferreira (Oranje BTC), Thiago Sarandy (Binance Brasil), e Pedro Lapenta (Hashdex).

Guiga explicou os planos da Oranje BTC como uma tesouraria de Bitcoin inspirada na Strategy do Michael Saylor. Uma tesouraria, segundo ele, se difere muito de outras formas de adoção institucional como ocorre com fundos familiares, por exemplo. A principal diferença é o foco no longo prazo e a medição dos rendimentos em unidades da moeda (BTC), não no pareamento em dólar ou real.
Ele também explicou que a estratégia de manter tesouros em Bitcoin não se aplica a qualquer empresa. Por exemplo, empresas com muita demanda financeira operacional podem ter dificuldade com grandes alocações de longo prazo já que existe uma necessidade maior de capital de giro ativo.
Já Pedro apresentou o objetivo da Hashdex em criar um índice cripto que seja referência no mundo, assim como o S&P 500 e outros índices o são para o mercado tradicional. Conforme levantado no painel pela Cláudia, não existem muitos bancos e outras instituições no Brasil olhando para o mesmo objetivo. Lapenta concordou que hoje a Hashdex navega em um oceano azul neste sentido.
Enquanto isso, Thiago expandiu a visão da Binance para os próximos anos, anunciou em “alfa” o lançamento de equities dos EUA tokenizadas para negociação 24/7 na plataforma e declarou ser contrário a práticas anticompetitivas que usam da regulamentação estatal para neutralizar a concorrência.
Sobre equities, a Binance pretende utilizar a aquisição de 2025 da Sim;paul para também oferecer ações da bolsa de valores brasileira neste modelo. Sobre concorrência, Sarandy mencionou a importância de players menores para o modelo de negócios da Binance, já que essa “concorrência” também utiliza a Binance como pool de liquidez para suas operações.
Do outro lado da moeda, o palco “Onchain” recebeu Rafael Castaneda (Casta) moderando um debate entre Michael (Zcash Brasil) e Rafaela Romano (Disruptivas) sobre o tema: “O Bitcoin está falhando em sua missão?”

No centro do debate estava a visão original do Bitcoin como moeda peer-to-peer alternativa aos sistemas financeiros centralizados. Os painelistas levantaram questões culturais e técnicas que sugerem um distanciamento da criptomoeda líder em relação à proposta inicial de Satoshi Nakamoto.
Inclusive, discussões sobre Satoshi e a criação do Bitcoin formaram uma aula de história, referenciando um documentário também apresentado durante a Zcon Vozes 2 no sábado (30 de maio).
Privacidade
Ainda no debate sobre a missão do Bitcoin, privacidade e fungibilidade foi um argumento apresentado por Michael. Segundo ele, receber BTC como pagamento é arriscado pois o histórico de transações da moeda poderia levar a uma censura institucional em algum momento no futuro. O problema não é hipotético já que vimos, por exemplo, congelamento de fundos em exchanges de doações recebidas pelos caminhoneiros protestando no Canadá durante a crise do COVID-19 — entre outros tantos casos.
O painel desenvolveu com muita interação com a platéia (uma das maiores do primeiro dia) e insights interessantes sobre uso de cripto no dia-a-dia, guerras de forks na comunidade do Bitcoin, e mais assuntos relacionados.
Já no segundo dia, Aamandita (Zcash Brasil) subiu no palco “Tokennation” para um painel dedicado exclusivamente à privacidade. Infelizmente, eu não consegui ficar para a conversa, mas puxei a Aamandita no pavilhão da Bienal para uma troca rápida com ela sobre o tema — em exclusiva para o Bitcoin Block.
Comecei com uma pergunta provocativa sobre a relação entre compliance e privacidade: Até que ponto a indústria (ou o usuário) deve abrir mão entre um ou outro pólo. Aamandita disse que é importante termos soluções que encontrem um equilíbrio.
“Abrir mão da privacidade” é muito perigoso nos dias de hoje, ela explicou, principalmente com tantos casos de vazamentos de bancos de dados e outras formas de abuso contra informações pessoais. No entanto, ela também enxerga no compliance uma forma de proteger os usuários que decidem viver em sociedade.
“Privacidade não é para se esconder, mas para proteger o que é seu.”
Seguindo com minha próxima pergunta: De zero a dez, quão avançados nós estamos na discussão aberta de privacidade — considerando que o mercado cripto finalmente voltou a colocar o tema em pauta depois de muitos anos com ele em escanteio?
Aamandita acredita que quatro seria o estágio atual. Por enquanto, privacidade só está em pauta na bolha cripto, o que é um bom começo, mas ainda existe muito trabalho a ser feito para atingir a população.
“A gente precisa que esse assunto flua mais na boca de pessoas menores. Na boca de pessoas que não tem ideia do quanto são vigiadas.”
De forma geral, gostei bastante do evento e do final de semana com foco em cripto, blockchain e privacidade. Mal posso esperar para o próximo ano. Nos vemos novamente por lá!
Sobre Vini B
Vini B pesquisa e escreve sobre cripto, software livre, privacidade e cibersegurança desde 2020. Somando seis anos de experiência em produção de conteúdo e consultoria especializada sobre o assunto. Ajudando pessoas a aprender como conseguir mais liberdade no ambiente digital. Vini é parceiro do BitcoinBlockBR e criador do thecoding e código aberto duas publicações gratuitas e independentes em thecoding.substack.com e codigoaberto.substack.com e é validador da rede da NEAR (thecoding.pool.near).
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