Leonardo Sepulcri*
Durante décadas, a engenharia de software girou em torno de um elemento central: o código. Escrever, revisar e manter linhas de programação era o núcleo da atividade, e o principal gargalo de produtividade. Entretanto, esse paradigma começa a mudar de forma estrutural com o avanço da Inteligência Artificial (IA) Generativa. Hoje, o código já não é mais o ponto mais difícil – nem o mais valioso – do processo.
Ferramentas baseadas em modelos de linguagem são capazes de gerar código com velocidade e qualidade crescentes. Segundo uma pesquisa, cerca de 78% das empresas já utilizam IA em pelo menos uma função, e a adoção de ferramentas voltadas ao desenvolvimento de software avança rapidamente. O problema é que essa evolução não foi acompanhada por mudanças equivalentes na forma como o software é concebido. Em outras palavras: ficou mais fácil escrever código, mas não necessariamente escrever o código certo.

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Esse descompasso revela uma mudança mais profunda. Se antes o desafio era transformar requisitos em código, agora o maior risco está em transformar requisitos mal definidos em código perfeitamente executado. A IA acelera a entrega, porém também amplifica erros de concepção. Nesse novo cenário, o centro da engenharia de software deixa de ser a codificação e passa a ser a especificação. Ou seja, a definição clara, estruturada e validada do que precisa ser construído.
Essa transição exige uma mudança de mentalidade. Especificar bem significa traduzir regras de negócio, restrições técnicas e requisitos regulatórios em um formato que possa ser interpretado por máquinas e humanos. Em setores como o financeiro, isso ganha ainda mais relevância: cada funcionalidade precisa ser rastreável, auditável e alinhada a normas como DORA, GDPR e Basel III. A simples justificativa de que “foi a IA que gerou o código” não é aceitável para um auditor.
Ao mesmo tempo, essa mudança reposiciona um dos maiores desafios históricos das grandes organizações: os sistemas legados. Estimativas de mercado indicam que grande parte da lógica de negócio ainda está concentrada em plataformas antigas, muitas vezes sem documentação adequada. Nesse contexto, a dificuldade não está em reescrever o código, mas em entender o que ele faz. Sem uma camada de especificação confiável, qualquer tentativa de modernização corre o risco de perder conhecimento crítico acumulado ao longo de décadas.
É aqui que a discussão sobre governança ganha protagonismo. A rápida disseminação de ferramentas de IA criou um cenário em que desenvolvedores utilizam múltiplos assistentes, modelos e ambientes sem uma estrutura central de controle. O resultado é fragmentação, aumento de custos e riscos de segurança. Especialistas indicam que, embora a adoção de IA seja ampla, apenas uma parcela das empresas redesenhou seus processos para governar esse uso de forma consistente. A consequência é uma nova forma de dívida tecnológica: invisível, mas crescente.

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Outro vetor dessa transformação é a ascensão dos agentes de IA. Diferentemente dos assistentes tradicionais, esses sistemas são capazes de executar tarefas completas de forma autônoma, como criar funcionalidades, testar aplicações e interagir com pipelines de desenvolvimento. Isso amplia ainda mais a necessidade de especificações bem definidas. Se antes o desenvolvedor interpretava o requisito, agora essa interpretação pode ser feita por múltiplos agentes, e qualquer ambiguidade se multiplica em escala.
Nesse novo modelo, o papel dos profissionais de tecnologia também evolui. Para além do escrever código, passa a ser essencial estruturar problemas, definir regras e garantir coerência entre intenção e execução. A vantagem competitiva deixa de estar na velocidade de codificação e passa a residir na capacidade de transformar complexidade em especificações claras, reutilizáveis e governáveis.
A engenharia de software não está deixando de ser técnica, porém está se tornando mais estratégica. Em um mundo onde a IA escreve código com eficiência crescente, o verdadeiro diferencial está em definir, com precisão, o que deve ser construído. No fim das contas, a pergunta mais importante já não é “como programar”, mas “o que, exatamente, estamos pedindo para a máquina fazer”.
*Leonardo Sepulcri é Head de Inovação e Tecnologia no Brasil da GFT Technologies

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