Por Alex Ferreira, CEO da FMG
O Brasil já provou que sabe usar inteligência artificial. Agora precisa demonstrar que sabe transformar esse uso em resultado.
Segundo a OpenAI, o país é o terceiro maior mercado do ChatGPT em usuários ativos semanais. Os brasileiros enviam cerca de 215 milhões de mensagens por dia à plataforma e, em junho de 2026, 35% das mensagens estavam associadas a atividades profissionais, de acordo com a empresa.

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O problema é que o mercado não precifica quantidade de mensagens, licenças ou usuários. Precifica resultado. E é justamente nessa passagem, do uso para o valor econômico, que o Brasil ainda tem uma lacuna.
O Bank of America chamou recentemente a atenção para isso ao apontar que o fluxo de recursos para mercados emergentes sem uma tese ligada à inteligência artificial praticamente secou nos últimos dois meses. Entre 21 e 28 de agosto deste ano, fundos de ações brasileiras registraram R$ 1,4 bilhão em resgates, contra uma média semanal de R$ 100 milhões no segundo trimestre. Segundo o banco, investidores têm diferenciado cada vez mais os emergentes pela exposição à tecnologia e à IA.
A pergunta, portanto, não deveria ser se o Brasil usa IA. Deveria ser: quanto valor econômico essa IA está gerando e quanto desse valor fica no país?
Hoje, ainda somos muito mais consumidores do que produtores de inteligência artificial. O AI Index 2026, da Universidade Stanford, mostra o tamanho da distância: os EUA receberam US$ 285,9 bilhões em investimento privado em IA em 2025, o equivalente a 23 vezes os US$ 12,4 bilhões da China. Por outro lado, o Brasil nem aparece nessa disputa.
Tecnologia desenvolvidas no Brasil
Isso não significa que os brasileiros precisem tentar construir o próximo modelo de fronteira ou competir em volume de investimento com norte-americanos e chineses. Esse seria um erro de estratégia. A questão é identificar onde podemos transformar capacidade tecnológica em vantagem econômica.
O Brasil já demonstrou que consegue fazer isso em outras áreas. Pix e Open Finance são exemplos de infraestrutura desenvolvidas localmente que ganharam escala e mudaram comportamentos. Na IA, nossa vantagem pode estar menos em criar um modelo generalista para competir com os gigantes e mais em desenvolver aplicações e modelos especializados em problemas nos quais temos conhecimento, dados e demanda: saúde, crédito, agro, indústria e serviços.
Há ainda uma questão menos visível relacionada à conta dessa dependência. O Brasil possui uma das maiores concentrações de data centers da América Latina, mas continua dependendo de servidores, plataformas e capacidade computacional estrangeira. Segundo dados citados pela Brasscom, o déficit brasileiro na balança de Serviços de Computação e Informação chegou a US$ 7,9 bilhões em 2025. Ao mesmo tempo, cerca de 60% do processamento relacionado à inteligência artificial brasileira é realizado fora do país, segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
É uma espécie de aluguel tecnológico: fornecemos dados, energia, profissionais e mercado consumidor e pagamos, em dólar, pela inteligência processada em infraestrutura que não controlamos.
Por isso, o debate sobre IA no Brasil não deveria ser reduzido à pergunta sobre quanto o país investirá em deep tech. A questão empresarial e econômica é outra: onde a IA pode gerar valor que seja mensurável, recorrente e capturado aqui?
Para uma empresa, o teste é simples. Pergunte quanto do EBITDA veio da IA. Se a resposta for apenas “ganhamos produtividade”, ainda falta uma etapa. Produtividade é meio. Resultado financeiro é o que importa.

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É essa mudança de mentalidade que precisamos fazer – deixar de contar usuários, pilotos e ferramentas e começar a medir receita incremental, redução de custos, margem, velocidade de operação e retorno sobre o investimento.
O Brasil não é um país sem IA. É um país que ainda precisa fazer a tecnologia virar caixa. Não precisamos gastar como os Estados Unidos. Mas precisamos escolher onde temos contexto, dados e problemas que conhecemos melhor do que outros mercados e transformar essa combinação em soluções capazes de gerar resultados. A próxima fase da IA no Brasil não será definida por quem usa mais. Será definida por quem conseguir transformar uso em valor.
*Alex Ferreira é CEO e fundador da FMG, boutique de tecnologia especializada em transformação de negócios, produtos digitais e inteligência artificial aplicada. Com quase três décadas de experiência em tecnologia, construiu sua trajetória implementando soluções em operações de alta complexidade, passando pelos ciclos do software, da transformação digital e, agora, da inteligência artificial.
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