Análise da Ana de Mattos – Analista Técnica e Trader Parceira da Ripio
O mercado de criptomoedas encerrou 2025 sob pressão, após um quarto trimestre marcado por desalavancagem, maior incerteza regulatória e sensibilidade aos fatores macroeconômicos. Esse pano de fundo explica o início de 2026 mais contido para os ativos digitais, especialmente quando comparado ao desempenho dos mercados tradicionais em janeiro, que apresentaram movimentos de alta. O S&P 500 ultrapassou 7.000 pontos pela primeira vez e o Nasdaq chegou perto de novas máximas, impulsionados por ganhos em empresas de tecnologia.
Nas criptos, o mês foi de movimentos mais curtos, refletindo um processo de ajuste de posições em um cenário de baixa liquidez e menor disposição ao risco. O cenário só virou no último dia do mês, quando um evento macro desencadeou uma reação defensiva que rompeu a dinâmica lateral predominante, aumentou a volatilidade e pressionou os preços para baixo.
Esse comportamento está diretamente relacionado à dados macro, como a postura do Federal Reserve. O banco central manteve a taxa básica na faixa de 3,5% a 3,75% e sinalizou uma pausa no ciclo de cortes iniciado no fim de 2025. A justificativa é objetiva: inflação ainda acima da meta, com núcleo do PCE próximo de 3% ao ano e consumo doméstico acima do esperado nos EUA. Na prática, o Fed sinaliza que não há urgência em ampliar estímulos monetários, o que modera a liquidez e impõe um ambiente mais criterioso para ativos de risco.
Com isso, o debate do mercado deixou de ser sobre “se” haverá flexibilização monetária e passou a se concentrar em “quando” e “em que ritmo” ela ocorrerá. Essa mudança é relevante para o investidor porque, sem um novo impulso de liquidez, os investidores ficam mais cautelosos e o capital busca investimentos mais defensivos, deixando os preços mais sensíveis aos indicadores macroeconômicos.
Apesar de um ambiente monetário mais restritivo, o cenário global parece mais forte: o FMI revisou para cima a projeção de crescimento mundial para 3,3% em 2026 e atribuiu essa melhora à adaptação das economias às tarifas comerciais e ao boom de investimentos em IA. Nos EUA, a expectativa é de crescimento de 2,4%, favorecido por políticas fiscais, juros em queda e um ciclo intenso de investimentos em tecnologia.
Com um cenário de crescimento sem recessão, o apetite por risco segue elevado nos mercados globais, mesmo sem novos estímulos monetários relevantes. Ainda assim, o FMI alertou para riscos: caso os ganhos de produtividade associados à adoção de IA não se materializem no ritmo esperado, a precificação atual dos ativos pode exigir ajustes. Como a valorização está muito concentrada em poucas empresas de tecnologia, uma revisão dessas expectativas poderia se espalhar para outros segmentos, afetando a riqueza das famílias e as condições globais de crédito.
Em contraste com o otimismo observado globalmente e nos EUA, a projeção para a economia brasileira em 2026 ficou em 1,6%, abaixo da média projetada para a América Latina e o Caribe, que é de 2,2% para o mesmo período. Essa diferença aponta para um cenário doméstico menos favorável, o que tende a afetar os investimentos locais e a percepção de risco do país ao longo do ano.
Bitcoin
O mercado cripto iniciou janeiro com níveis de alavancagem mais baixos do que os observados no encerramento de 2025, o que reduziu a probabilidade de movimentos desordenados e liquidações em cascata. Esse ajuste de risco contribuiu para uma dinâmica de preços mais contida ao longo do mês, apesar da presença de fatores macroeconômicos relevantes.
Hoje, o mercado cripto opera em uma escala próxima à de outros grandes mercados financeiros. Com o Bitcoin valendo cerca de US$ 1,57 trilhão e o mercado de criptomoedas somando aproximadamente US$ 2,65 trilhões em market cap, o impacto do capital institucional sobre os preços se torna mais relevante. Como resultado, o setor passa a reagir mais aos mesmos fatores que influenciam a bolsa, como juros, dólar, risco político e liquidez.
Essa leitura ficou evidente no episódio de 19 de janeiro, quando um choque político no comércio internacional pressionou os mercados. O anúncio de tarifas de 10% sobre importações de oito países europeus, com sinalização de aumento para até 25% até junho, levou o Bitcoin a recuar da região de US$ 95 mil para próximo de US$ 92 mil. A correção veio acompanhada de aproximadamente US$ 875 milhões em liquidações no mercado cripto, reforçando a sensibilidade do setor a eventos macro e políticos.
Apesar da estabilidade observada ao longo de boa parte de janeiro, um movimento no fim do mês mostrou que o mercado segue altamente sensível a choques institucionais, com correções rápidas quando a percepção de risco muda. A trajetória do preço durante o mês foi de uma consolidação que acabou cedendo no fechamento mensal, após um gatilho macro relevante.
O ativo iniciou o mês sendo negociado próximo da mínima mensal, nos US$ 87.550 no dia 1. Ao longo da primeira quinzena, chegou a atingir a máxima de US$ 97.924 no dia 14, e até o dia 29, caminhava para encerrar janeiro com uma valorização modesta em relação à mínima do mês, sendo negociado em torno de US$ 88.050, sinalizando perda de fôlego no curto prazo.
Esse movimento mais lateral foi interrompido por um estresse de vendas no último dia do mês, após o anúncio da indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve. A reação foi imediata: o preço do Bitcoin acelerou a correção, marcou a mínima do mês em US$ 75.719 no dia 31 e encerrou janeiro bem abaixo dos níveis observados dias antes.
Análise dos ETFs
O principal vetor do mercado em janeiro foi o fluxo institucional via ETFs, que concentrou capital nos ativos com maior liquidez e maior clareza regulatória. Como resultado, criptomoedas mais especulativas seguiram sem tração consistente ao longo do mês, em um ambiente no qual o investidor institucional priorizou previsibilidade e facilidade de entrada e saída.
A dinâmica desses fluxos foi irregular, mas compatível com um mercado em fase de consolidação. O mês começou com entradas líquidas superiores a US$ 1,1 bilhão nos dois primeiros pregões do ano. Na semana seguinte, porém, houve um movimento de realização mais intenso, com cerca de US$ 1,5 bilhão deixando os ETFs em apenas três dias. Entre 13 e 15 de janeiro, o fluxo voltou a ganhar força, com aproximadamente US$ 1,7 bilhão em compras, lideradas principalmente por BlackRock e Fidelity.
Esse padrão de entradas e saídas sugere um comportamento típico de investidores institucionais, com realização após movimentos de alta e recomposição de posições quando os preços recuam.
A relevância dos ETFs fica evidente ao observarmos que, em momentos de forte entrada líquida, esses veículos foram capazes de absorver um volume de BTC superior à oferta diária minerada. Nesse contexto, a formação de preços passa a depender menos do fluxo de varejo e mais da consistência das entradas institucionais.
Por isso, fevereiro tende a transformar as entradas e saídas dos ETFs em um termômetro relevante: a continuidade de compras sugere a sustentação de preço, enquanto saídas mais relevantes aumentam a probabilidade de correções.
Cenário regulatório
No campo regulatório, janeiro foi marcado por poucos avanços e alguns adiamentos. A votação do projeto de estrutura de mercado nos Estados Unidos, conhecido como Clarity Act, foi postergada após a retirada de apoio da Coinbase, que discordou de pontos relacionados ao tratamento dos rendimentos de stablecoins e à ampliação dos poderes da SEC. O governo, representado por David Sacks, pressionou por um consenso entre os participantes do setor. Na prática, o adiamento prolonga a incerteza jurídica e tende a adiar investimentos e novos lançamentos até que regras mais claras sejam estabelecidas.
Ao mesmo tempo, houve um sinal pontual de alívio regulatório que impactou o sentimento do mercado. A SEC encerrou, sem medidas punitivas, uma investigação que se arrastava há anos envolvendo a Zcash. Mesmo sem mudar o cenário regulatório, o caso cria um precedente importante ao mostrar que processos podem ser encerrados sem sanções quando há cooperação e esforços de conformidade. Esse desfecho contribuiu para reduzir, ainda que parcialmente, a percepção de risco regulatório sistêmico.
Conexão macroeconômica
Nos Estados Unidos, a inflação mostrou nova desaceleração em dezembro, com o núcleo do CPI recuando de 2,7% para 2,6%, abaixo do esperado. Esse dado reforçou a narrativa de desinflação controlada e desencadeou um rali de curto prazo, com reação positiva tanto das bolsas quanto do mercado de criptoativos.
O enfraquecimento do dólar sustentou o apetite por risco. Ao longo do mês, a moeda americana perdeu força e atingiu mínimas de vários meses frente a outras moedas fortes. O euro, por exemplo, chegou a ser negociado próximo de US$ 1,20. Para o investidor, um dólar mais fraco tende a sinalizar condições financeiras globais mais frouxas, favorecendo a busca por ativos alternativos. Historicamente, períodos de enfraquecimento do dólar costumam estar associados a maior força nos preços do Bitcoin.
Se o mercado continuar acreditando em juros americanos estáveis ou em trajetória de queda, o dólar pode permanecer sob pressão no próximo mês. Esse movimento tende a direcionar capital para ações fora dos EUA, commodities e criptomoedas. Por outro lado, qualquer choque que leve a busca por segurança, por exemplo, crise política ou dados econômicos fracos nos EUA, poderia reverter parcialmente esse movimento e fortalecer temporariamente o dólar.
Ainda assim, o ambiente mais favorável ao risco não eliminou a busca por proteção. O ouro renovou máximas históricas, sendo negociado acima de US$ 5.500 por onça, movimento impulsionado tanto pela fraqueza do dólar quanto por episódios pontuais de aversão ao risco. Esse comportamento indica que, mesmo com a alta das bolsas, parte relevante do capital institucional seguiu comprando hedge contra riscos e incertezas políticas.
E essas incertezas estiveram presentes ao longo do mês, com pressão da Casa Branca por cortes mais agressivos de juros e um episódio visto como ameaça à independência do Federal Reserve, após o Departamento de Justiça considerar medidas contra seu presidente, Jerome Powell.
Com Powell se aproximando do fim do mandato e a recente indicação de Kevin Warsh por Donald Trump para a presidência do Fed, a atenção do mercado passou a se concentrar em como os ativos podem reagir caso Warsh assuma o comando da instituição. Com um histórico de maior cautela em relação a políticas monetárias expansionistas, sua possível nomeação foi interpretada como um sinal de maior rigor no combate à inflação. A resposta foi imediata: o dólar se fortaleceu, as expectativas de juros foram revistas no curto prazo e os ativos de risco, como ações e criptomoedas, sofreram pressão vendedora. Nesse contexto, a condução da política monetária americana volta a se afirmar, no curto prazo, como um dos principais vetores de instabilidade no mercado.
Entre as economias emergentes, o debate sobre desdolarização ganhou um novo capítulo. Em meio a tensões geopolíticas, alguns países têm buscado alternativas ao dólar nas transações internacionais. O banco central da Índia, por exemplo, propôs a interligação de moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) dos países do BRICS para facilitar o comércio e o turismo. Trata-se de uma iniciativa de longo prazo, mas que reforça a agenda de diversificação de reservas e a disputa monetária no cenário global.
Projeções para fevereiro de 2026
Em fevereiro, o foco se concentra em três fatores: a trajetória da inflação, a postura do Fed e o comportamento do fluxo institucional via ETFs. Esses elementos devem seguir como os principais vetores de preço.
Com o Fed em pausa, o mercado continuará reagindo a cada dado de inflação e atividade para recalibrar expectativas sobre cortes de juros. Os fluxos de ETFs seguem como o principal indicador de sustentação do mercado. No campo político, tarifas e ruídos seguem gerando volatilidade. A expectativa em torno do novo presidente do Fed adiciona um componente extra de incerteza, à medida que o mercado tenta antecipar o grau de rigor ou flexibilidade da política monetária sob a nova liderança.
Em um cenário neutro, fevereiro tende a repetir o padrão de janeiro, com preços em consolidação entre altas e correções, sem comprometer a tendência estrutural de longo prazo. Um cenário mais favorável exigiria dados macro reforçando a desinflação e retomada consistente das entradas nos ETFs, enquanto choques inflacionários ou políticos poderiam elevar a aversão ao risco e reabrir volatilidade.
Para o investidor, em um ambiente sensível a eventos macro e políticos, disciplina e seletividade são essenciais. Priorizar ativos líquidos, acompanhar o fluxo institucional e monitorar o calendário macro permanece a estratégia mais segura.
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