Por Wagner Trindade, Diretor de Digital da Evertec Brasil
O sistema financeiro brasileiro alcançou um novo patamar de digitalização com a entrada em operação da portabilidade de crédito via Open Finance. A funcionalidade abre espaço para que o consumidor assuma o protagonismo da própria vida financeira. Agora, é possível transferir empréstimos pessoais sem consignação (o chamado crédito pessoal “clean”) entre instituições de forma totalmente digital, com poucos cliques e diretamente pelo aplicativo do banco.
Esse avanço, além de modernizar o um processo até então burocrático e demorado, também fortalece a competitividade do mercado ao ampliar a transparência, reduzir barreiras de migração e estimular a melhoria contínua das ofertas de crédito.
O Brasil possui hoje um dos maiores ecossistemas de Open Finance do mundo em número de clientes conectados. Segundo dados do Banco Central extraídos do portal Open Finance Brasil, no início de janeiro de 2026 foram registrados cerca de 155 milhões de e consentimentos ativos, considerando pessoas físicas e jurídicas que autorizaram o compartilhamento de seus dados com instituições participantes, uma alta de mais de 148%frente ao mesmo período de 2025, quando esse número era de aproximadamente 62 milhões.
Dentro desse contexto, o mercado de crédito pessoal sem consignação já movimenta cerca de R$ 300 bilhões por ano, segundo a Associação Open Finance, representando uma parcela relevante do crédito ofertado no país. Um estudo da PwC estima que a adoção do Open Finance pode gerar até R$ 42 bilhões em receitas incrementais para o setor financeiro em 2026, com grande parte desse potencial associada a produtos de crédito.
Esse movimento altera de forma estrutural a dinâmica competitiva do mercado de crédito. Ao reduzir fricções e simplificar a migração entre instituições, o cliente passa a ter maior poder de escolha, e a retenção deixa de depender apenas de relacionamento histórico ou conveniência operacional.
Nesse novo contexto, fatores como preço, experiência digital e capacidade de personalização ganham ainda mais relevância. Instituições que anteciparem estratégias integradas, baseadas em dados e tecnologia, estarão em melhor posição para atrair e reter clientes em um ambiente cada vez mais transparente.
Além disso, a digitalização dos fluxos de portabilidade traz importantes ganhos de eficiência operacional. A padronização de dados, a automação de processos e a redução de etapas manuais diminuem custos, reduzem erros e aumentam a previsibilidade das operações. Processos que antes levavam de 20 a 25 dias podem ser concluídos em cerca de cinco, elevando produtividade e capacidade de escala.
Para as fintechs, esse ambiente favorece agilidade, inovação e ciclos mais rápidos de desenvolvimento. Para bancos tradicionais, impõe-se o desafio de acelerar a modernização e integrar tecnologia à estratégia de negócio.
Autonomia para o consumidor
A portabilidade via Open Finance consolida uma jornada centrada no usuário, orientada por dados e fricção mínima. Trata-se de um avanço estrutural em transparência e autonomia. A mesma infraestrutura que viabiliza o compartilhamento seguro de informações permite que o cliente compare, em tempo real e dentro de um único fluxo digital, taxas, prazos, custo efetivo total e condições contratuais entre diferentes instituições com clareza, padronização e melhor experiência.
Esse ambiente reduz assimetrias de informação que historicamente limitavam a capacidade de negociação do cliente. Com mais dados e visibilidade, o usuário passa a tomar decisões mais conscientes e alinhadas à sua realidade financeira.
A maior facilidade para migrar contratos também estimula uma postura mais ativa na gestão do crédito. Renegociações, revisões periódicas e busca por melhores condições tendem a se tornar práticas mais frequentes, fortalecendo a educação financeira e o uso responsável do crédito.
Além disso, a simplificação dos processos traz ganhos concretos de praticidade. A redução de etapas, a eliminação de documentos físicos e a integração entre sistemas tornam a experiência mais rápida, segura e previsível, reduzindo obstáculos operacionais ao longo da jornada.
Com a expansão gradual para outras modalidades, como consignado e crédito imobiliário, esses benefícios tendem a se ampliar, consolidando o Open Finance como um instrumento central para o maior poder de decisão financeira dos brasileiros.
Essa virada de chave representa a mudança estrutural na forma como o crédito é ofertado, precificado e gerenciado no Brasil. A portabilidade integrada ao Open Finance cria um ambiente no qual eficiência, concorrência e experiência passam a caminhar juntas, gerando impactos diretos tanto para as instituições financeiras quanto para os consumidores.
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