Alessandro Buonopane*
O debate sobre o futuro do trabalho ficou preso por tempo demais a uma pergunta limitada: a Inteligência Artificial (IA) vai substituir empregos? A realidade aponta para outra direção. A IA está redistribuindo o valor do trabalho, e isso muda o que as empresas recompensam, como as equipes operam e quais habilidades importam. Hoje, quase 60% dos trabalhadores já usam IA no dia a dia, mas apenas 6% das organizações dizem estar avançadas no redesenho da interação entre humanos e máquinas, evidenciando um descompasso que limita os ganhos.
Os dados mostram que o modelo de produtividade individual está ficando para trás. Quase nove em cada dez profissionais que usam IA economizam ao menos uma hora por dia, mas os maiores ganhos aparecem no coletivo. Equipes com mais de dez pessoas relatam cerca do dobro de impacto em eficiência e inovação em relação a equipes menores. Além disso, 74% dessas equipes maiores já utilizam IA, contra 54% das menores. O motivo: a tecnologia reduz o custo de coordenação – aquele tempo invisível gasto em alinhamentos, que hoje consome mais de 20% da jornada.
Esse ponto ajuda a explicar um paradoxo. Durante anos, acreditou-se que equipes menores seriam mais eficientes. Agora, a complexidade favorece times diversos e interdependentes. Não por acaso, 91% das empresas que mais capturam valor da IA priorizam habilidades diversas, e equipes multifuncionais têm 30% mais chance de gerar ganhos relevantes. A produtividade do futuro será cada vez mais coletiva.
Ao mesmo tempo, a transformação expõe fragilidades antigas. A gestão de performance está presente em 91,6% das organizações, mas apenas 39% a consideram eficaz. Embora 66% afirmem que ela alinha metas ao negócio, a execução falha – falta clareza, consistência e conexão com recompensas. Empresas estimam que melhorias poderiam elevar a produtividade em mais de 10%. A IA já começa a apoiar esse processo: um terço das organizações utiliza a tecnologia, e 73% planejam adotá-la.
Outro mito que cai é o do fim dos escritórios. Hoje, 55% do tempo de trabalho ainda ocorre nesses espaços, que passam a funcionar como hubs de colaboração. Usuários intensivos de IA – cerca de 30% dos trabalhadores – não se isolam mais: 85% dizem ter amizades no trabalho e 86% confiam em suas equipes. A automação libera tempo para atividades mais humanas, como colaboração, aprendizado e inovação.
Essa mudança também redefine profissões. Vagas ligadas a tarefas repetitivas caíram cerca de 13%, enquanto funções analíticas, técnicas e criativas cresceram aproximadamente 20%. A IA não substitui o humano, mas sim amplia sua capacidade. O mesmo vale para decisões: a tecnologia processa dados, mas o julgamento continua sendo humano.
Na América Latina, esse movimento ocorre em alta velocidade. Mais de 80% das companhias já adotam IA, e 70% relatam mais resultados do que frustrações. Ainda assim, apenas 14% das lideranças se dizem muito confiantes. O principal gargalo não é técnico: 38% dos desafios estão ligados a habilidades e cultura. A região avança rápido, porém ainda constrói maturidade.
O futuro do trabalho não é sobre máquinas substituindo pessoas. É sobre organizações que aprenderam a fazer humanos e tecnologia trabalharem juntos de forma inteligente. E esse aprendizado, diferentemente dos modelos de IA, não pode ser comprado pronto. Precisa ser construído. Sem redesenhar o trabalho, o risco em se adotar a IA – um mercado global que deve atingir US$ 4,8 trilhões até 2033 – torna-se muito grande. Não por acaso, empresas que apenas adicionam tecnologia a processos antigos têm ganhos limitados – em torno de 5%. Quando repensam a forma de trabalhar, esse número pode chegar a 30%.
Podemos concluir que a diferença não está na ferramenta, mas no modelo organizacional. A tecnologia está se tornando comum. Já a vantagem competitiva será cada vez mais humana e coletiva.
*Alessandro Buonopane é CEO Latam e Brasil da GFT Technologies
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